Terça-feira, Junho 09, 2009

A gente nunca sabe


Quando eu acordo, um espirro já denuncia que nesse dia está por vir à ativa um cara cheio de rinite. E, como se já não bastasse, pôr desculpa em qualquer detalhe pra não ter que andar na praia demonstra com exatidão que não sou bom de promessa. Se tá chovendo, não posso me molhar. Se faz sol, tá quente demais. Se nublado, bem...aí não olho pra janela. Sem mesmo perceber, vem um Loro José aqui, vai uma Ana Hickman ali, um livro acolá, quando, maldito relógio, chegou a hora do banho e (oba!!) de trabalhar. O Jardim Piedade já deve estar passando e eu ainda procurando a toalha. Saio atrasado, fones de ouvido balançando pela rua, enquanto vou guardando chave, limpando água da testa, amaldiçoando o sol, e lembrando que - mais uma vez - não almocei...Escuto qualquer coisa muito alta, pra não ter que ouvir o conversê dos colegas passageiros. Não que eu não os suporte, mas sim que eu enjoei do mesmo clima de 'não-te-conheço-por-isso-tenho-o-direito-de-te-olhar-assim-estranho' de ônibus. Por isso, fecho os olhos, visualizo Radiohead tocando em algum palco que ainda não fui e nunca hei de ir (proteção anti-frustração) e sigo meu caminho, suando nas costas. E cochilo. Chegando no maravilhoso bairro de São José (logo sinto o cheiro do Camelódromo), passo a tarde inteira entre o computador, pastas (e mais uns espirros), biscoitos recheados, pipocas salgadas, ordens de pagamento, canetas falhando, entre outros afazeres. Às 17, sigo a galope para a parada mais próxima, correndo, não apenas atrás do ôninus, que já segue sem mim, mas também da vida desejada, que insiste em demorar a chegar. Após engarrafamentos vários e muitos minutos perdidos, a recepção de latidos avisa: cheguei a minha casa. Enrolo um pouco, faço hora, pra variar, às vezes tomo banho, às vezes deixo pra mais tarde; como, faminto, mas preguiçosamente, o que tiver (e o que tem geralmente é nem tanto), sem muito preparo, apenas pra enganar o estômago. Corro pro computador. Nada de mais, nada de interessante, o desgosto se abate, a mesa de estudo está logo ali, de braços de plástico abertos, me chamando, clamando pela minha responsabilidade... Os livros estão do mesmo jeito que deixei, abertos, riscados, grifados, pedindo a mim por mais riscos, mais grifos. Quase sempre eu vou. Quando não, sucumbo ao orkut, ao msn, ao blog de fulano de tal, à internet, pegajosa como ela, doentia como ela...deliciosa como ela. Seja instruído, seja perdido, só sei que a noite passa. E, às vezes, o sono chega. Se ainda não tomei banho, corro pra cumprir o asseio, empinando mais um nariz de papagaio congestionado. Muriçocas zumbindo, irritadas com o Repelex que acabei de passar...E durmo fácil, para, quem sabe, sonhar com uma rotina diferente para o dia seguinte. Quando acordar, talvez seja tudo igualzinho. Mas a gente nunca sabe se o espirro do dia seguinte trará um dia diferente.

Sábado, Junho 06, 2009

Nada de mais

Parou

Não vinha ninguém

Pôs o pé na pista

e passou o trem




Sexta-feira, Abril 03, 2009

Pelo escuro dos olhos teus




Quando a sombra dos olhos meus
e a escuridão dos olhos teus
resolvem se encontrar,
ai, que ruim que isso é,
meu Deus,
que angústia que me dá
o assombro desse par.

E, se a sombra dos olhos meus
reside na escuridão dos seus
só pra me assustar,
meu amor, juro por Deus,
me sinto congelar.

Meu amor, juro por Deus,
que a sombra dos olhos meus já não pode durar.
Quero a sombra dos olhos meus
longe do escuro que seu olho dá.

Pela escuridão dos olhos teus,
eu acho, meu amor,
e só se pode achar,
que a sombra dos olhos meus
precisa acabar.

Sexta-feira, Março 27, 2009

A volta


A liberdade de quando dizer deve acompanhar quem escreve. A obrigatoriedade de escrever torna a atividade mecânica e sem gosto. Já a irregularidade da inspiração torna a escrita um exercício de consciência, de vontade e de espontaneidade. Nada contra os cronistas de jornal ou os escritores com prazo de editora. Estes são, sobretudo, profissionais da palavra, e encontraram na produção delas o seu ofício. Seu trabalho requer prazo.

Entretanto, um blogueiro nada mais é do que um informal, pactuado em compromisso ou não com sua platéia. O ato de postar para ele é um diálogo, uma puxada de conversa, um cutuco. O seu silêncio, por outro lado, é seu descanso, sua ausência e seu tempo.

Receio que há entre mim e esta página em branco uma simpatia imensa, porém, capaz de, por vezes, ceder passagem ao receio de preenchê-la de palavras forçosas. E é este sentimento que me faz criar esses espaços vazios, essas pausas e hiatos por 'tempo indeterminado'. Talvez seja meu próprio senso de expressão limitado teimando em não se pronunciar.Talvez seja uma mera falta de assunto.

Mas é esse período ausente o que me permite dizer que cada palavra aqui é sinônimo de vontade. E se ela aqui está, não é por rotina, obrigação ou programação. Ela vem desprogamada, sentida, desejada e despojada.

Está aberta a nova temporada de intenção.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Meus predicados






É tudo
culpa

desse sujeito

que não consegue
completar as ações

sugeridas por seus
verbos mais

transitivos.





Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

2009


Não é um ano novo.

É tudo de novo.

Sábado, Dezembro 27, 2008

A lição


Ao transformar toda a alegria forjada em depressão garantida, você abriu as cortinas de minha ignorância emotiva. Ao me ensinar a amar, você me ensinou a sofrer. E se te culpo por ter me dado esta lição é porque ainda não aprendi a ser adulto. No fundo, ainda sou aquele menino que acusa sem pensar, pede com pesar e pesa sem medir. Apesar de tudo, eu só queria crescer.